Reflexões acerca das motivações e expectativas para a cirurgia bariátrica


Muitos são os pensamentos acerca da cirurgia bariátrica para aqueles que começam a idealizar a possibilidade de submeter-se a ela. Desde cedo os candidatos à cirurgia começam a idealizar os riscos e benefícios envolvidos. No entanto, atualmente com crescente número de cirurgias, e na medida em que as pessoas conhecem alguém que fez a cirurgia e falou que vem sendo um processo que transcorre bem em suas vidas, vimos aumentar o sentimento de segurança quanto aos riscos cirúrgicos e resultados pós-cirúrgicos. Desse modo, de uma cirurgia que deixava a pessoa e familiares temerosos, vimos a gastroplastia tornar-se um processo tratado, cada vez mais, com naturalidade.

 

Existe ainda, é claro, certo receio, que é característico de qualquer procedimento cirúrgico, sobretudo quando afeta diversos aspectos das pessoas durante o processo de recuperação, com as novas conformações que traz para o corpo e vida. Entretanto, no contato com pacientes candidatos à cirurgia, pude ouvir com certa frequência frases como “conheço uma pessoa que fez e correu tudo bem”. É como se soubessem que a cirurgia tende a correr bem para si mesmos na medida em que outras pessoas puderam desfrutar de benefícios advindos dela. Ao longo da minha trajetória na terapia e elaboração de laudos para pacientes, tal frase me chamou a atenção para o seguinte:

 

Por um lado, conhecer a experiência dos demais colaborou para que os pacientes se sentissem mais seguros e tranquilos, tanto para o procedimento cirúrgico, quanto para o processo pós-cirúrgico. Por outro, isso não permitiu compreender melhor suas motivações pessoais para realizar a cirurgia. E é sobre esse segundo aspecto que esse texto procura se debruçar.

 

Uma questão fundamental que se coloca é a de se a cirurgia poderá garantir aspectos subjetivos que não necessariamente estão relacionados com a obesidade em si. Espero deixar essa questão mais clara ao longo do texto e ajudar aos interessados a compreenderem o quão complexa pode ser a relação com esse procedimento que, apesar de representar uma esperança para a saúde e vida pessoal de muitas pessoas, é ainda cercado de pontos nebulosos pouco trabalhados. Em suma, meu pensamento parte do pressuposto de que, ainda que fazer a cirurgia seja um processo cujas expectativas podem ser orientadas pela experiência dos outros que já passaram por ela, é também um processo que demanda um maior conhecimento de aspectos pessoais que não devem ser negligenciados.

 

Singularidade no processo de decisão

 

Desde o início, quando a pessoa começa a pensar o processo de decisão pela cirurgia, já se percebe uma grande diferença na experiência de cada um. De quando a pessoa toma conhecimento de que a cirurgia é uma possibilidade, até a decisão por efetivamente fazê-la e ir a um médico cirurgião, cada um já vivencia esse momento de uma forma diferente.

Em alguns casos, até chegar ao momento em que o paciente opta pela cirurgia, é provável que passe por um período de leituras, reflexão e conversas sobre o assunto, com familiares, amigos e pessoas que já realizaram a cirurgia, seja no dia-a-dia ou em grupos de mídias sociais próprios para isso. Por vezes, acontece também de o paciente motivado por algum fator situacional, pontual, criar certa urgência para realizar a cirurgia. Nesses casos, percebe-se a necessidade em fazer a cirurgia o quanto antes, inclusive para que não dê tempo dele sentir medo e desistir do processo. Ou seja, são duas formas completamente distintas de passar pelo processo de decisão.

 

Independentemente dos aspectos em comum da cirurgia, que faz com que a conversa com outros pacientes que já a realizaram seja de grande ajuda para os candidatos, existem aspectos muito próprios de cada um, que torna o processo pré-cirúrgico e pós-cirúrgico extremamente pessoal e singular. Cada um terá em mente medos, anseios e expectativas mais ou menos conscientes que precisam ser vistos a luz da compreensão que têm de suas vidas, e não somente à luz da experiência dos demais.

 

As expectativas para a cirurgia

 

Podemos refletir acerca da expectativa dos benefícios da cirurgia a partir de duas modalidades, que podem, inclusive, coexistir na gama de motivações dos pacientes. Uma modalidade de expectativa primária, a qual os pacientes conseguem reconhecer e falar com mais clareza a respeito de suas motivações para a cirurgia, e outra modalidade de expectativa secundária, a qual os pacientes têm dificuldade e até vergonha de falar a respeito de suas motivações.

 

Se perguntarmos os motivos para que a pessoa esteja interessada em realizar a cirurgia, é possível que alguns aspectos sejam levantados. E normalmente serão as expectativas primárias as levantadas primeiro e com mais convicção. O aspecto da saúde comumente é trazido como o principal motivo para a cirurgia. É um aspecto que tende a ser facilmente abordado pelos pacientes, sendo na maioria dos casos tratado como o fator fundamental. É um aspecto naturalmente aceito e buscado na sociedade, o que faz dele um assunto fácil de ser abordado, afinal, melhorar a qualidade e ampliar a duração da vida é algo facilmente compreendido por todos. Nesses momentos, em que podem falar sobre esse aspecto, aparece a necessidade de praticar esportes, de poder aproveitar melhor e mais o tempo com os filhos, de trabalhar e até mesmo dormir com mais qualidade.

 

O fator estético também aparece como importante e figurando entre as expectativas primárias, ainda que com um pouco menos frequência e intensidade. Dada a complexidade da cirurgia, muitas vezes atribuir importância à estética
pode ser visto como algo fútil, o que faz com que muitos pacientes tratem esse fator com menos naturalidade do que a saúde. Ainda assim, esse é um fator que é trazido pelos pacientes com certa frequência. Os constrangimentos envolvendo a condição de obesidade está presente na nossa sociedade, dessa forma, tanto por poderem usar uma roupa que antes não poderiam, quanto por poderem deixar de ser vistos somente como uma pessoa obesa, a estética torna-se um fator importante.

 

Nesse sentido, muitos pacientes têm bem claras suas motivações, e isso colabora para que o processo de recuperação seja mais fácil. Na medida em que conhecem suas expectativas e podem vê-las se realizando, o processo pós-cirúrgico torna-se mais prazeroso. Realizar suas expectativas é um estímulo para manter a rotina de exercícios e a dieta necessárias, por exemplo, bem como o resultado alcançado é promotor de uma sensação de vitória significativa.

 

Porém, em alguns casos, existem expectativas realmente difíceis de serem trazidas e elaboradas, às quais podemos chamar de secundárias. Tendem a ser vistas pelos pacientes como de menor importância e/ou menor aceitação, o que colabora para deixá-las relegadas em segundo plano, ainda que possam ter grande relevância para a superação dos desafios inerentes à recuperação pós-cirúrgica. Como foi dito, conhecer suas expectativas e se esforçar para vê-las se realizando pode ajudar a tornar melhor o momento pós-cirúrgico. Entretanto, de que forma poderia colaborar essas expectativas que ficam pouco claras? E o que acontece quando o paciente se dá conta de que elas não estão asseguradas, mesmo após a cirurgia?

 

São questões importantes de serem levantadas e é para abordar essas expectativas de forma livre e não preconceituosa que muitas vezes faltam oportunidades. Dessa forma, criar oportunidades para falar sobre as expectativas secundárias é, juntamente com a avaliação, um trabalho fundamental para o psicólogo no trabalho pré-cirúrgico. Mais do que servir para uma avaliação, esse é um momento de capacitação fundamental para o sucesso do pós-cirúrgico. Principalmente no período inicial pós-cirúrgico, quando o paciente começa a se deparar com a realidade de que certas expectativas não estão garantidas, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as restrições alimentares. Diria que essa mistura entre a quebra das expectativas secundárias e o aumento das restrições alimentares é o principal causador de ansiedade e possível arrependimento.

 

Dessa forma, encontrar um espaço de escuta confiável para esses desejos é essencial. Minha experiência no contato com pacientes que fizeram ou pretendem fazer a cirurgia foi a de que essas motivações, quando mais bem tratadas, tendem a produzir mais significados para o que representa o sucesso na cirurgia, o que diminui a possibilidade de arrependimento da mesma.

 

Carlos Vinícius R. Almada

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